O (DES)INTERESSE DO JOVEM PELA RELIGIÃO
Autor: Josias da Costa Jr., coordenador de Pesquisas em Ciências da Religião no Instituto deeEstudos de Religião e Sociedade da América Latina (IERSAL). Mundo Jovem, nº 337, junho 2003, p. 19
O lado interessante da religião é que ela empresta sentido à vida e quer responder questionamentos da existência humana, porque ela preenche as lacunas existenciais e espirituais do ser humano moderno.
Quando olhamos para a história, sem dificuldades observamos que, dentre os diversos fenômenos culturais existentes em todos os povos, o religioso se faz presente. Ele está na música, no teatro, na literatura, na política, nos projetos sociais e filosóficos. Por isso, o antropólogo Bronislaw Malinowski, constatou que não existe povo que não tenha religião. Entretanto podemos verificar que para alguns é como se esse fenômeno não os atingisse. Porém é um pensamento ilusório, pois a religião sempre exerceu influência na vida dos indivíduos e da sociedade.
Se o fenômeno religioso está presente na história da humanidade, como encaixa-lo na modernidade, que trouxe consigo uma forte dose de rejeição aos valores religiosos? Alguns pensadores modernos se opuseram radicalmente ao espírito medieval, pois entenderam que o modo de viver a religiosidade, sob a tensão corpo/espírito, inibia a vitalidade. A espiritualidade era entendida a partir de uma vida de renúncia à vida do mundo. Esta renúncia remete às experiências da religiosidade cristã para o interior das ordens religiosas. Assim, o corpo se transformou em um lugar de impossibilidade de experiências espirituais. Por isso se entendia que implicava em perda da vitalidade, inibidos pelos conceitos morais.
Mas o que é vitalidade? Antes da I Guerra Mundial (1914-1818), no bojo da revolução cultural burguesa tardia, da nova arte do “estilo jovem” e das “filosofias de vida”, a vida era considerada boa e isenta de culpas. A “filosofia da vida” lutava contra a moral vigente, pois esta estraga o prazer e a alegria de viver. De acordo com o filósofo Friederich Nietzsche (“Assim falo Zarathustra”), a vida deveria ser liberta dos poderes da moral. Em vez da moral da vida, a livre intensificação da vida deveria prevalecer por meio de suas expressões criadoras. Vitalidade na linguagem biológica significa “potência do ser”. Entretanto na esteira do movimento cultural e político se tornou ânsia de poder destituído de valores morais e espirituais.
Outros pensadores também ajudaram no fortalecimento da idéia de um mundo dessacralizado, isto é, uma sociedade com mulheres, homens e jovens em geral a viver sem deus e sem profetas. O que importa é viver intensamente, sem a culpa que a moral impõe.
Hoje também somos atingidos por tais pensamentos, porque somos jovens nascidos em meio às crises da modernidade. Isso explica, até certo ponto, a falta de interesse, por parte de alguns jovens, quando o assunto é religião. Pois, de algum modo entendem que ter religião implica em perda de vitalidade. Isso não é verdade! Através da prática religiosa é possível criar laços fraternos. Os espaços religiosos podem ser momentos agradáveis e de integração social, desenvolvimento de habilidades artísticas etc.
O lado interessante da religião
Quero chamar sua atenção para algo muito importante. O ser humano moderno se iludiu na busca da vitalidade dessacralizada e abriu mão de valores morais e espirituais. Mas não se deu conta de que esse modo de viver não empresta sentido à vida. Com razão, o teólogo alemão Jürgen Moltmann lembra que vitalidade destituída de tais valores justificou as brutalidades do nazismo e do fascismo. Por isso, ele entende a vitalidade como amor à vida. Portanto, aponta para a religião da afirmação incondicional da vida. Neste sentido, é a religião que clama por paz, em tempos de guerra, que é a própria negação da vida.
A religião também pode ser uma poderosa força de mobilização, como ocorreu na década de 1950, na luta dos negros norte-americanos, que só podiam sentar nos bancos de trás d os ônibus. Uma dia uma negra se s entrou no banco da frente e foi posta para fora do veículo. Tal motivação motivou o Reverendo Martin Luther King Jr. A incentivar o boicote aos ônibus, e contou com a adesão total dos negros. Com isso, os empresários pressionaram o Congresso para a aprovação da lei que proibia a discriminação racial nos transportes.
No comments:
Post a Comment